Tito de Glorbit

Fobia

Tito dormindo no balaio

Tersa me ligou. Disse que vem me visitar. Preciso fazer compras, Deço as escadas, sempre a surdina…gosto de pessoas mas não gosto de encontrar pessoas onde não quero encontrar pessoas e definitivamente, para mim, escada de um edifício residencial é um péssimo lugar para encontrar pessoas tanto quando se sobe quanto ao descer. Quando o outro desce é como algo que cai sobre você que se obriga a olhar por inteiro aquele que desconhecendo você, no caso, eu, não suspeita da sua fobia.Quando isso acontece, fico naquela angústia. Meu Deus! Onde ponho meus olhos? Na situação inversa, onde agora, eu, sou o indivíduo que desce e vai despencando sobre o outro que sobe. Angustido, porém em declive, me desespero. Me observam! Observam meus sapatos! Minhas roupas! Meu cabelo! E pior! Sabem onde moro.Então, sorrateiramente deço as escadas…Estou na rua…Preciso fazer compras…Um bom vinho para Tersa.

Tito, de preto, na velha san SebastianTito, de preto, na Velha San Sebastian.

Tersa não me escreve há dias…

Minha caixa postal produz eco cada vez que a abro. Sem as chaves, naturalmente. É lamentável mas não fui até o correio para pegar uma cópia. Optei por deixa-la aberta depois que o fiz com uma chave de fendas. Só Tersa me escreve cartas virtuais de peso real.

Enquanto isso, contento-me admirando o assoalho da caixa postal.

Hoje perco menos tempo do que quando procurava achar a localização da caixa. Nunca decorei o número. Esquadrinhava a caixa em um determinado setor e ia direto nela. Agora, não preciso nem esquadrinha-la. É a única com a portinhola entreaberta. Eu a vejo com mais freqüência agora.

Tito degustando seu vinhoTito degustando seu vinho

Ano Novo, vida velha.

Leio as notícias… apenas as datas mudam. É tudo uma grande mentira, mas tão bem contada, tão bem encenada que perdura enganando a boiada. Todos com gigantescos tapolhos parabólicos.

Israel invade Gaza. bombardeia abrigos da ONU. Mata centenas de civis, inclusive crianças. Onde a intervenção Norte Americana? Quanta hipocrisia.

Caminho pela praia de Conchas… As pessoas estão tristes, os amantes assustados… Os sorrisos contrastam com olhares sorumbáticos. Viver a mentira sem sabê-la produz estes zumbis. Mas sabê-las, o que prduz?

Tito

A cada passo um descompasso

tão maltratado o trapo que farrapo está.

Então, da solidão, uma lição:

mesmo que nas farsas se esconda,

o pensamento, em vão,

deglute, rumina,  vomita.

rasteja e lambe o chão

ignora a própria percepção

substima seus sentidos

condecora a teimosia

sem amor ou poesia

respondendo ao próprio eco

do farrapo lá de cima

Tito, sin palabras

Tito, sin palabras

Sem Palavras

Sem palavras… acordei sem as palavras que sempre acordam comigo. o site oncotônico voltou a funcionar. Isso significa que devo voltar a escrever. E eu…Sem palavras.

Recebi e.mail de Tersa de Campo Limdo. Me fala dos ratos que invadem nossos espaços. Diz ela que quer se refugiar na biblioteca. Parece que esses ratos não lêem. Queria aconselhar, orientar…mas eu…sem palavras… Para onde elas foram esta noite? Não voltaram da viagem que as levei em sonho? Sem palavras… O que há sem as palavras e “o que hacem las palabras” quando não estão onde se espera que estejam? Coçam a ponta da lingua? brincam no cortex ou em algum labirinto no ouvido de alguém? Não duvido…

Palavras deveriam ser guardadas em uma caixa antes de dormirmos. Assim, acordaríamos e lá estariam elas já de café tomado esperando para serem usadas. Ansiosas, prontas para mais um poema, uma crônica ou se for feriado, um simples bate papo e, quando não quizessemos realmente utiliza-las, colocaríamos uma tabuleta na tampa da caixa: “Do not disturb” 

Fragmento da manhã

Acordei… É estranho quando escrevem algo começando com acordei. Embora o acordar sugira o início de algo, acordo e percebo que não é o início de nada que não seja o que já está posto. Engordo as pernas do dia com tentativas inúteis de torná-lo mais curto pra que possa tentar então acordar novamente e tentar fazer com que este acordar, desta vez, seja um começo. A casa continua desarrumada. A vida continua desarrumada, mas, e daí? O mundo está desarrumado. A marina que decora o corredor minúsculo do pequeno apartamento continua torta. Terá chegada a hora de esquadrejá-la conforme se padroniza? Ou devo deixar que alguma visita o faça pra mim? Há meses não recebo visitas… Ponho no prumo. Mas sem nenhuma obsessividade.

Outubro, assim como minha vida, se arrasta num veloz 2008 e quase chega dezembro sem terminar outubro. O tempo, não é preciso, alguns dias tem mais de 24 horas, alguns meses chegam a ter 40 dias. Não me importo mais. Deixei de contar o tempo. Ele que me conte agora.

Desço as escadas do pequeno edifício cinzento torcendo pra não encontrar ninguém no caminho. Hoje tenho sorte, tudo vazio. Não quero falar com ninguém. Solidão é tudo o que se precisa para estar consigo mesmo e por mais deprimido que esteja hoje, gosto da minha companhia. Olho minha caixa de correio. Contas. Coloco-as novamente no interior do escaninho fecho a portinhola e tenho que conter a tentação de jogar a chave fora. O dia mal começou e eu já não sei o que fazer. Saio para a rua e uma baforada de ar quente me desanima. Tenho tanta coisa pra escrever, mas as notícias que o mundo me trás me fazem questionar a necessidade de estar aqui. A chave da caixa de correios presa em um pequeno barbante rodopia nos meus dedos. Olho pra ela. Ninguém me escreve há anos. Mas também, pra que escrever cartas se existe o correio eletrônico. Só recebo contas e propagandas em minha caixa… Perversamente permito que enquanto a chave roda em meus dedos, a mesma seja lançada à distância. Tinha a intenção de pega-la, mas, merda! Bocas de lobo deveriam ser proibidas. Dirijo-me à estação do metrô, tomo o trem até a estação mais próxima do correio central para fazer uma cópia da chave. O dia será longo…

Tito observa a obra do amigo Gilberto

Tito observa a obra do amigo Gilberto

Há quem não perceba a própria sombra

Muito menos onde alcança o seu caminhar.

Dança sempre a mesma música, acha graça.

E bate palmas ao ver a vida passar.

Suicidamente a atitude é deprimente

Complicadamente essa visão é comovente

Decididamente a verdade é latente

Coincidentemente essa história é da gente

Há quem dite regras sem saber pra onde ir.

Roteirizam a vida em notícias e novelas

Se conclui em si, mas não é de ser si

A natureza da gente é diversa…

Delicadamente a situação é coerente

Mas, naturalmente a condição é evidente.

E dificilmente não se é conivente

Em terra de banguela, manda mais quem tem mais dente.

4 de outubro de 2008

Tito em sua caminhada matinal em La Concha

Gaivotas

San sebastian amanheceu quente e nublado. A preguiça calorenta dos transeuntes me contagiou e eu fiquei a observar de minha janela as velhas senhoras que das suas janelas também o faziam. Pensei: atividade! Atividade! Nada se moveu em mim. Contemplei ao longe as montanhas bascas e ouvi o som do silêncio que me cercava com sua orquestra de “som que se busca”. Aquele som que muitas vezes procuramos e quando o temos, não percebemos. Tomei coragem, peguei um suco de pêssego na geladeira. Deu meio copo. Preciso fazer compras.

Essa preguiça ibérica… Esse calor… Decido sair, vou caminhar na praia da Concha rumo a Ondarreta. As antigas cabines de banho mais uma vez me divertem e eu viajo no tempo imaginando homens e mulheres com seus maiôs enormes. É engraçado… Só consigo imaginar estas cenas em preto e branco e naquela velocidade típica do cinema mudo. Minha caminhada dura cerca de 40min. Na volta para casa, paro em um velho bar de mergulho. Peço uma tortilla e uma xícara de cortado. A senhora que me atende, parece impregnada da preguiça que paira em Donostia e se arrasta atrás do balcão. Depois de uma pequena eternidade, tomo o meu café observando a liberdade das gaivotas que também fazem seu desjejum. Setas precisas lançadas ao mar em eficiente mergulho de caça. Termino meu café, pago e continuo meu trajeto de volta pra casa. Cumprimento Dotô, o florista da esquina, converso amenidades. Falo um idioma bilíngüe, castelhano e basco, mas a gente se entende. Meu português volta e meia se emaranha entre os dois dialetos e assim vamos enriquecendo a diversidade cultural de San Sebastian.

Chego em casa. Olho para tudo aquilo que preciso arrumar. Sinto uma saudade de Caymi e me deito na rede trazida por um amigo do Ceará. Fico digerindo idéias. Algumas me descem bem, mas me saem mal quando vão pro papel. É domingo e ainda não escrevi nada pra Oncotô… Sorte que vi as gaivotas hoje e as entendi. Assim pude escrever estas linhas.

28 de setembro de 2008

Tito observa a trilha

Versos e Prosas

Não estou para versos.

Que bom.  resta a prosa

que expressa o que quero

caso em versos eu não possa

Convém lembrar um fato.

Me alimento do que creio.

E, ao mirar-me no espelho…

Meu Deus, como estou magro…

E é jocoso  acreditar

que representam meus interesses

Se nem ao menos me conhecem,

quem dirá o que me interessa.

Mas, paciência se têm.

Quando a prosa não me agrada

o verso me convém

.                                         21 de setembro de 2008

Tito no balaio

A Mesma Coisa

Não é a mesma coisa.

A mesma coisa é diferente

A mesma coisa tem gosto igual àquela coisa

E o cheiro, parece com a outra.

Embora seja diferente na forma

A mesma coisa às vezes parece outra coisa

E por isso não percebemos que é a mesma coisa

E por serem muitas coisas parecidas na embalagem,

Supõe-se que o conteúdo seja a mesma coisa.

Mas não… É outra coisa.

Mas, o pior são as coisas que são as mesmas e se escondem em embalagens diferentes. Aí, as coisas se confundem e acham que não são a mesma coisa.

Mas agora é a mesma coisa.

Diferente da coisa lá em cima.

14 de setembro de 2008